FAMIPED

Familias, Pediatras y Adolescentes en la Red. Mejores padres, mejores hijos.

Revista electrónica de información para padres de la Asociación Española de Pediatría de Atención Primaria (AEPap)

Aventuras e desventuras do controlo de esfíncteres

Consuelo Escudero. Psicóloga clínica. Carmen Martínez González. Pediatra de Atención Primaria.
Palabras clave: 
, , ,

Com frequência o controlo de esfíncteres converte-se numa etapa de difícil manejo para os pais. A negação da criança em defecar durante vários dias, a queixa de que lhe dói a urinar ou o “molhar” a roupa porque espera até ao último minuto, são algumas das queixas e preocupações que chegam às consultas de pediatras e psicólogos. Nalgumas ocasiões podem desencadear um rol de exames médicos à procura de infecções ou a tentativa de diversas soluções, enemas, regras penosas como a exigência de que evacue em horas e tempos marcados, com a ideia de “educar” a criança na limpeza, o que se traduz em horas sentado na sanita, bacio, etc. De facto, isto não faz mais do que aumentar a procupação dos pais e iniciar uma batalha com a criança, que se for saudável, resistirá com todas as suas forças a fazer o que se lhe exige.

UMA ETAPA NORMAL

Antes de mais há que considerar que todos estes incidentes correspondem a uma etapa normal no crescimento da criança. Entre os 2 e os 3 anos inicia-se o controlo de esfíncteres, primeiro o esfíncter anal e depois o vesical. Qualquer criança saudável consegue o controlo espontâneo do esfíncter quando está maduro neurologicamente, mas o controlo não é instantâneo nem está isento de avanços e retrocessos, de incidentes e acidentes, como qualquer outra aprendizagem, andar, dormir, ler, etc. Sabemos que toda a aprendizagem nas crianças se produz normalmente por tentativa e erro, no caso do controlo de esfíncteres exercitando o controlo expulsão da urina ou matéria fecal e comprovando o efeito que isso causa no meio que a rodeia. Ou seja, a reacção dos pais perante estas “tentativas”. Normalmente a reacção é o que complica muito o processo. A preocupação dos pais, os aborrecimentos, as exigências, inclusive às vezes os castigos e as consultas médicas, não fazem mais do que complicar e aumentar o problema.

Nesta etapa produz-se um aumento significativo da sensibilidade e capacidade motora da criança, tanto fina como grossa, sente com maior precisão os movimentos intestinais que precedem as dejecções, ou o enchimento da bexiga. A percepção destes movimentos pode produzir satisfação e algumas vezes inquietação, porque são sensações novas, tanto a nível motor como a nível psíquico. Tentará prolongá-los testando o controlo do corpo e ao mesmo tempo do meio que o rodeia, ao perceber claramente as reacções dos pais perante os resultados de tais ensaios. Muitas vezes não sabem expressar verbalmente o que sentem de forma apropriada, originando equívocos; é frequente que usem expressões como “dói-me” ou “dóidói”, os mais pequenos tocando no abdómen ou nos genitais e fazendo gestos que confundem os pais e muitos pediatras, quando o que estão a sentir são os movimentos intestinais ou a bexiga cheia de urina, sem saber como expressar essas novas sensações. Durante um período ocorrem, ao mesmo tempo, uma maior capacidade motora com uma imaturidade para antecipar no tempo quando podem aguentar: é um facto comprovado por todos os pais, a necessidade imediata da criança urinar ou defecar, quando se lhe perguntou cinco minutos antes de sair de casa se tinha vontade de ir à casa de banho e dissera que não. Frequentemente isto produz grande irritação nos pais, que o vivem como um capricho ou desobediência da criança, quando na realidade só significa que não consolidou ainda o controlo e não pode antecipar o momento temporal dos seus limites. Qualquer emoção forte pode desencadear também a mesma necessidade imediata.

Não esquecer que nesta etapa produz-se simultaneamente um avanço na autonomia e um aumento da actividade e curiosidade da criança. Quer ser “um menino grande” e fazer tudo sozinho, necessita afirmar a sua identidade frente às petições e ordens dos pais, aparecem as birras, a obstinação e o negativismo. Diz “não” a tudo ainda que depois geralmente faz o que se lhe pede. O controlo de esfíncteres envolve-se também nesta atitude de afirmação e negativismo geral. A criança necessita que os pais imponham limites e normas firmes e adequadas à sua idade para que aprenda as primeiras noções do que se pode ou não fazer e para se proteger dos seus próprios impulsos. Nesta tarefa ajudará precisamente a curiosidade da criança por coisas novas e as forças do desenvolvimento que o empurram ao crescimento, a ser “grande” e a fazer como os “grandes”. Sentir-se protegido e querido levá-lo-á a querer satisfazer os pais para não perder o seu amor.

ALGUMAS SUGESTÕES

Antes de tudo e em primeiro lugar há que pensar que tudo o que sucede nesta etapa relacionado com o controlo de esfíncteres é completamente normal e transitório. É portanto excepcional que existam problemas médicos ou psicológicos por trás; cada criança tem o seu ritmo, o seu tempo e o seu “feitio”.

Não serve de nada e com frequência é contraproducente iniciar um controlo antes de a criança estar madura física e psicologicamente. Quer dizer, forçar o controlo porque chega o Verão, faz calor e parece mais adequado ir sem fralda ou porque vai iniciar o jardim infantil e seja uma necessidade, é tão desadequado quanto pensar que tem que andar sozinho quando o consideremos oportuno. Todas as crianças iniciam por si próprias o controlo de esfíncteres, e é uma aprendizagem como outra qualquer.

Não se deve angustiar perante as queixas, protestos ou falhas da criança na consolidação

do controlo. Deve pensar que o vai conseguir e fazê-lo saber sem grandes preocupações.

É importante não entrar nas provocações que frequentemente inicia a criança com as suas negações. Conseguem-se melhores resultados se não se lhes dá importância ou se se ignoram. Os pais têm que ter a segurança interna de que a autoridade é deles e não da criança.

Os pais que entendam este processo evitarão converter um período normal em problemático, com consultas ao pediatra e inclusive idas às urgências, onde por vezes se tomam medidas excepcionais como pôr clisteres, que podem produzir o efeito contrário do que se procura: maior oposição e maior retenção.

O aumento da capacidade motora e da curiosidade vai levar a criança a novas aprendizagens e jogos. Apoiá-la e partilhar com ela todas estas capacidades ajudá-la-ão a renunciar a “sujar-se” em qualquer momento em troca de uma satisfação maior de “ser um menino grande”.